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1.
Era um daqueles dias com um início tão auspicioso, que se temia ser quase certo que algo iria correr mal. O termómetro marcava 28 graus, o céu sobre Faro estava limpo e era o dia 14 de setembro. As férias escolares em Inglaterra, na Alemanha e na Holanda tinham terminado nesse fim de semana, reduzindo o tráfego aéreo para metade e deixando as praias do Algarve vazias.
A luz em setembro era diferente. Mais suave.
Neste dia, que alguns moradores da pequena vila piscatória da Fuseta, no sotavento algarvio, viriam a batizar de Quarta-feira Negra, uma enorme tristeza abatera-se sobre os seus habitantes. Embora os portugueses tendam, por natureza, a ser pessimistas, facto aliás bem ilustrado pela criação da sua própria palavra para esta tribulação nacional — saudade — a verdade é que a Fuseta fora hoje particularmente afetada. Porque hoje Rui Aviola havia deixado a Fuseta por um ano. Rui Aviola pertencia à Guarda Nacional Republicana, o que soava bem mais grandioso e emocionante do que o seu trabalho quotidiano na verdade proporcionava. Afinal, a GNR era responsável por todas as pequenas coisas que aconteciam fora das cidades, ou seja, pelos gatos e maridos fugidos, como se comentava jocosamente nos corredores da Polícia Judiciária, na sede regional de Faro, onde se investigavam gatos e maridos mortos.
Seja como for, Rui Aviola fora emprestado aos alemães em Hamburgo por um período de doze meses, no âmbito de um programa de intercâmbio. E muita coisa podia acontecer nesses doze meses, como todos concordavam nos bares da Fuseta: talvez morresse no cumprimento do dever ou, muito pior, conhecesse por lá uma alemã bonita, que as pessoas da aldeia piscatória imaginariam ser uma espécie de robô loiro e rico, se tornasse pai e ficasse na Alemanha.
“De certeza que algum manga-de-alpaca da Europol inventou isto num momento de tédio”, disse Carlos Esteves, sentado no banco do passageiro do carro da polícia à paisana, sentindo o suor a escorrer-lhe pelo pescoço e pelas costas abaixo. Carlos era um subinspetor da Polícia Judiciária, a autoridade portuguesa responsável pela investigação criminal, o que não se imaginava facilmente: usava calções, alpargatas e uma camisa azul-clara larga e desfraldada. Trazia uns óculos Ray-Ban de lentes finas enfiados no cabelo meio comprido. Tinha 38 anos e era um tipo alto e corpulento que evitava com sucesso ter de se mover rapidamente.
Carlos sorvia uma Coca-Cola Diet por uma palhinha, enquanto a estrada para o aeroporto passava por eles a alta velocidade. Graciana Rosado, a delicada inspetora-chefe, ligou a sirene por breves instantes, para afastar uma família de turistas franceses que ia à sua frente num Citroën decrépito, com três crianças e um golden retriever no banco de trás. Graciana meteu prego a fundo. Carlos não conhecia ninguém como a sua colega. Era a calma em pessoa, mas ao volante da sua carrinha Volvo escura, Graciana tornava-se uma autêntica piloto de rali. O seu namorado João, jornalista, agarrava-se sempre à porta, conforme Carlos tinha observado.
Graciana Rosado, que tinha o cabelo escuro preso num rabo-de-cavalo e usava calças de ganga, uma blusa e por cima um casaco para esconder a arma de serviço, tinha a alcunha de Piaf, devido à sua baixa estatura de 162 centímetros. O seu mentor profissional, Raul da Silva, da 1.ª esquadra de Faro, dera-lhe esta alcunha porque, além de ser tão baixa, tinha uma voz rouca semelhante à de Édith Piaf — mas, infelizmente, não o mesmo talento para cantar. No entanto, com exceção de Raul da Silva, os seus colegas só usavam a alcunha quando Graciana não os ouvia.
“Alguma vez tiveste um caso com o Rui?”, perguntou Carlos. Graciana olhou-o de soslaio, mas só por um instante, porque se aproximava velozmente de uma autocaravana holandesa.
“Isso era uma piada?”
Ao contrário dela, Carlos não tinha uma relação fixa, não tinha mulher, pelo menos não sempre a mesma, como ele dizia. Abriu os braços com o ar mais inocente do mundo:
“Não era nenhum crime”.
Graciana suspirou. Realmente não. Quando se conheceram, houve uma noite em que quase acontecera. Lá fora, nas dunas da Ria Formosa, ao entardecer. A mera lembrança desse momento ainda lhe provocava arrepios. É que Rui Aviola parecia ter sido esculpido pelo próprio Miguel Ângelo. Tinha um corpo de sonho, uns olhos azuis profundos, o rosto emoldurado por caracóis escuros, enfim, um Adónis. Desfilava com aquela naturalidade confiante que o distinguia de uma beldade de passarela, mas sem o ar convencido. Na Fuseta, era considerado triplamente ideal: como amante, como genro e como pai.
Apenas o brilho esbatido dos seus olhos prejudicava um pouco a aparência geral. Graciana poderia ter-se deixado seduzir naquela noite no Farol, um bar junto ao porto, instalado num edifício octogonal com duas entradas, revestido de madeira escura, e em frente ao qual os hóspedes, até mesmo durante o mês de dezembro, se sentavam ao ar livre à noite, observando os coloridos barcos de pesca, ancorados a apenas dez metros de distância, no pequeno paredão do porto, balançando suavemente na água.
Já tinha bebido um bocado; Rui pedira-lhe dois ou três copos de aguardente de medronho. Os frutos do medronheiro, especialmente apreciados e utilizados aqui no Algarve e um pouco mais a norte no interior, eram colhidos à mão pelos agricultores e posteriormente destilados em aguardente. A destilação caseira era proibida, mas tratava-se de uma velha tradição em Portugal, pelo que a GNR se abstinha de impedir os agricultores de o fazerem.
Os medronhos que Graciana bebera nessa noite tinham tornado Rui Aviola ainda mais atraente e irresistível, mas Carlos, que não ignorava as intenções de Aviola e o estado de Graciana, sem dizer nada, dera-lhe o braço e levara-a a casa, que ficava apenas a quinhentos metros, na Virgílio Inglês n.º 5, uma rua pedonal cujas pedras da calçada estavam tão gastas por oitenta anos de uso que as crianças brincavam nelas descalças. Por vezes, naquele estado que antecede o sono, Graciana lamentava que Carlos tivesse frustrado as intenções de Rui naquela noite.
“Rui, Rui!”
Jovens mulheres entre os catorze e os sessenta anos tinham-se juntado na porta de embarque para se despedirem de Rui Aviola, que os seus colegas da GNR tinham feito questão de levar ao aeroporto de Faro. De calças de ganga justas e camisa descontraidamente desabotoada sobre o peito bronzeado, lá tirou a bagagem de mão do tapete rolante, mandando-lhes beijinhos. Graciana e Carlos, que tinham ido à pressa comprar uma sandes, ficaram um pouco de lado, mas Rui ainda os brindou com um aceno antes de virar a esquina e desaparecer. Por um ano. No âmbito do programa de intercâmbio da Europol, que destacara um alemão de Hamburgo para vir para a Fuseta. O melhor homem, lia-se no subtítulo do panfleto.
"Queremos aprender uns com os outros. Vamos fazer um intercâmbio com os melhores". As más-línguas afirmavam que a iniciativa deste programa partira de uma tal Sr.ª Kiefer, da Europol, com o propósito de salvar o seu próprio posto, supostamente prestes a ser abolido. Uma medida de criação de emprego por conta própria.
Seja como for, o programa estava a decorrer havia seis meses. Lisboa tinha recebido uma comissária bem-disposta da Hungria, o Porto um colega de Edimburgo. Chegara a vez de Faro. Esperava-se assim reduzir o ceticismo em relação às autoridades policiais europeias, especialmente entre as unidades policiais que seriam inevitavelmente as primeiras a serem expostas às consequências de tal medida. E tinha logo sido Rui a candidatar-se voluntariamente para integrar o programa.
“Mas, afinal, porquê?”, perguntou-lhe Carlos, abanando a cabeça. “Lá está frio. Há muitos alemães, provavelmente terás de atirar uma toalha para cima do banco de um bar para garantires o teu lugar.”
“Talvez”, respondera Rui, ignorando a ironia de Carlos, “mas aqui, na Fuseta… quero sair, ver algo diferente. Sabes o que é a Reeperbahn?
“Já ouvi falar. Mas tu não precisas disso.”
“Aqui é demasiado monótono para mim. Não há vagas em Faro e em Lisboa também não.”
Depois de escutar a explicação de Rui, Carlos Esteves limitou-se a suspirar, evitando olhá-lo nos olhos. O seu superior, Raul da Silva, que só dispunha de três inspetores, ficou muito satisfeito com o facto de o Adónis da Fuseta se ter oferecido como voluntário, pois, desta forma, conseguira impingir aos alemães um polícia de província como inspetor e evitar a falta de pessoal na sua própria organização.
Graciana Rosado também conhecia a verdade por trás das tentativas frustradas de Rui de ingressar na Polícia Judiciária: Rui Aviola nunca seria promovido para o cargo de comissário. Era demasiado limitado para o efeito. Graciana tinha conversado sobre isso com Agnes, a amiga sueca que tinha vindo para a Fuseta como mochileira e já trabalhava no Bar Farol, no porto, há seis anos. Agnes tivera um encontro com Rui.
“Agnes, o Rui perderia no xadrez mesmo que fosse a jogar contra uma porta.”
“Eu sei”, respondera, “mas também não pretendo dormir com o cérebro dele”.
A Fuseta iria agora ficar sem Rui durante doze meses. O grupo de mulheres inconsoláveis no balcão de embarque demorou a dispersar-se. Carlos enfiou o resto da sandes na boca. Graciana teve de sorrir ao observar o colega. Conhecia Carlos desde pequena. Se vasculhasse bem a sua memória, provavelmente lembrar-se-ia de centenas de situações com ele, ou mais. Mas teria de esforçar-se muito para encontrar uma em que ele não estivesse com algo comestível na mão.
“Porquê esse sorriso irónico?”
“Por nada, não é nada.”
“Achas que eu como demais.”
“Não.”
“Hum”, resmungou Carlos, olhando para o painel de informações.
Carlos gostava de se entregar aos prazeres da vida, e apreciava tanto um requintado pedaço de corvina — de preferência com rodelas de ananás assado — como um cigarro enrolado à mão; entusiasmava-se no estádio de futebol com a mesma devoção com que se deixava arrebatar pelo pôr do sol numa duna, que guardava no seu coração para sempre. Por vezes Graciana invejava essa sua capacidade. Carlos virou a cabeça, olhando para o painel de informação. Graciana seguiu-lhe o olhar: Voo LH 2409 de Hamburgo.
Arrived.
“Lost?”
Carlos, que era mais alto do que ela um bom palmo, puxou de um papel um pouco amarrotado com o nome completo do seu novo colega da Alemanha: Leander Lost. Não tinham pensado muito sobre o seu convidado, apenas se tinham referido a ele como “o alemão”, o que não soava lá muito hospitaleiro. Eles, como todos os portugueses, tinham sido educados para serem hospitaleiros, característica aliás que por vezes chegava a roçar a abnegação e era descaradamente explorada por turistas astutos.
É claro que encontravam frequentemente alemães aqui no Algarve. Os alemães eram pontuais e optavam por comer onde as porções eram grandes em vez de onde a comida era boa. Economizavam em gorjetas e elogios. Os portugueses das mesas vizinhas viravam a cara, constrangidos, quando eles verificavam a conta num restaurante. Os alemães tinham grande orgulho na sua indústria automóvel e eram campeões europeus da rabugice. Depois de os primeiros turistas sem filhos, ou seja, aqueles que podiam viajar fora da época das férias escolares, terem saído com as suas malas, apareceu um tipo esguio de fato escuro, camisa branca e gravata fina de couro. O cabelo farto e escuro estava aparado ao estilo prático do pente um.
Leander Lost viu o papel que Carlos segurava à frente da barriga e veio em sua direção, empurrando à sua frente três malas enormes e dois grandes sacos para fatos, cuidadosamente empilhados num carrinho de bagagem. A primeira coisa que a inspetora Graciana Rosado reparou em Leander Lost foi que ele mal piscava os olhos.
“Meu Deus, é um miúdo”, murmurou Carlos Esteves.
“Que disparate, Carlos. Deve ter uns trinta e poucos anos.”
“É pálido, parece que tem leucemia.”
“Podias ser um bocadinho mais simpático.”
“Eu estou a ser um bocadinho mais simpático.”
“Senhor Lost?”
“Yes.”
Ela estendeu-lhe a mão.
“Graciana Rosado, subinspetora da Polícia Judiciária, o meu colega, o Senhor Carlos Esteves”, acrescentou em inglês. Carlos apertou a mão do alemão.
“Olá”, respondeu Leander Lost impassível, mas mesmo assim polidamente. Tinha ar de quem levava tudo à risca. Um alemão.
Graciana apanhou a estrada nacional N125 de Faro para leste. Ela e Carlos viviam na Fuseta. Depois de algumas hesitações, decidiram instalar Leander Lost na Villa Elias, uma pequena e típica casa de campo que tinha pertencido aos pais de Graciana Rosado e que estava vazia havia sete anos.
Carlos estava novamente sentado ao lado dela, mordiscando uma espetada de carne. Leander Lost, sentado no banco de trás com o cinto de segurança colocado, absorvia a paisagem que passava. A maior parte dos veículos com que se cruzavam não teriam passado na inspeção na Alemanha. A estrada era poeirenta de ambos os lados. O sol do meio-dia acentuava as cores das casas, dos sinais de trânsito, das cadeiras de plástico em frente aos pequenos bares, onde os homens mais velhos se sentavam a fumar e a beber cerveja. A cada centena de metros, havia grandes caixotes do lixo com rodas na berma da estrada e o reboco das casas, na sua maioria brancas e depois decoradas com tinta azul, vermelha ou amarela nos rebordos e à volta das janelas, estava a descascar, sendo substituído pelo pó escuro que as corroía. Sobre tudo isto, um céu de um azul profundo.
Leander não se sentia à vontade, sem conseguir entender exatamente a razão. Não se estava a sentir bem. Na verdade, ele sabia o que se estava a passar: era um estranho naquele lugar. Não conhecia aquelas pessoas. Não conhecia a zona. Não conhecia o país. Ia, por isso, a contar cantos. Isso acalmava-o. Em miúdo, contava os cantos dos tacos de madeira com que as outras crianças lhe batiam e, por isso, profissionalizou-se na contagem de cantos. Uma sala quadrada tinha sempre oito cantos. Uma porta num caixilho tinha doze cantos. O caixilho em si, se não fosse embutido na parede, mas apoiado no reboco, também tinha doze. As janelas tinham normalmente oito cantos (incluindo os do caixilho). Assim, uma divisão normal com apenas uma porta, uma janela e nada mais tinha quarenta cantos. As coisas tornavam-se empolgantes quando era completamente revestida de azulejos.
Graciana Rosado observava o seu passageiro através do retrovisor. O seu grande trunfo profissional e pessoal era a intuição. Percebia quando alguém estava a mentir e sentia quando algo não batia certo. Com o seu namorado João tudo batia certo e com Carlos, embora a um nível diferente, também. Ao longo dos anos, a intuição de Graciana fora-se tornando numa voz que só ela conseguia ouvir. Segredava-lhe se alguém estava a mentir ou a dizer a verdade. Apesar de os pais serem profundamente religiosos, Graciana não acreditava que este seu dom representasse um milagre cristão, mas sim aquilo a que hoje se chama inteligência emocional. Esta tinha-se evidenciado com João e também com Carlos. Com Leander Lost, no entanto, a voz permaneceu em silêncio.
“Na verdade, tínhamos alugado um apartamento para si na Fuseta, mas infelizmente tivemos de reprogramar”, explicou Carlos Esteves em inglês escolar, dirigindo-se ao hóspede alemão. “O bloco de apartamentos está neste momento a ter problemas com o abastecimento de água. Em vez disso, arranjámos-lhe uma casa de férias em Alfandanga, perto da Fuseta, apenas a dois quilómetros de distância. É uma casa, mas não é enorme. Geralmente é suficiente para duas pessoas. Tem uma atmosfera muito idílica.”
“Ótimo”, respondeu Leander em inglês.
“Há um restaurante em frente que serve grandes porções.”
Graciana deu uma pequena cotovelada a Carlos.
“Enchemos-lhe o frigorífico”, acrescentou ela, “mas se quiser algo especial, podemos parar no supermercado.”
“Há queijo?”
“Há.”
“Então não preciso de nada.”
“E comprámos cerveja”, disse Carlos, “Sagres”.
“Muito simpático da vossa parte.”
Instalou-se um breve silêncio no Volvo. Leander Lost já tinha contabilizado 57 cantos, quando Carlos se virou para ele novamente: “Gosta de futebol?”
“Gosto.”
Carlos sorriu — pelo menos já era alguma coisa.
“Conhece o Cristiano Ronaldo?”
“É um grande futebolista”, disse Leander Lost. “O melhor jogador do mundo”.
Carlos virou-se novamente: “Está a falar a sério, ou está a tentar ser educado?”
Leander Lost refletiu por um momento: “Uma coisa não exclui a outra. Eu quis dizer a sério e educadamente.”
Carlos esboçou um grande sorriso, visivelmente satisfeito.
“Só é pena que ele não jogue em Portugal”, acrescentou Leander. “É de assinalar que a seleção portuguesa perdeu sempre até agora, exceto sem o Ronaldo, no Campeonato Europeu.”
Os lábios de Carlos voltaram a cerrar-se e os seus olhos voltaram a seguir a estrada.
“Achas que ele está a falar a sério?”, perguntou Graciana em português.
“Não sei, é difícil dizer, não parece pessoa de se rir muito.”
“Sim”, confirmou Carlos, “ tem cara de botox.”
Graciana acenou com a cabeça: “Muito poucas rugas.”
“E olha para nós muito fixamente”, acrescentou Carlos entre duas dentadas.
“Tem olhos bonitos”, disse Graciana, enquanto ultrapassava calmamente um camião, apesar do movimento em sentido contrário, escapando todos milagrosamente a um acidente fatal. “Estávamos a falar de assuntos internos”, disse em inglês, virando-se para Lost. Lost acenou com a cabeça. Já ia nos 121 cantos. Ouviu-se o crepitar do rádio.
“Graciana?”
Era a voz de Luís Dias. Parecia estar num lugar ruidoso. Luís Dias e Ana Gomes estavam hoje no turno de dia da GNR. Juntamente com outros quatro colegas, estavam alojados num edifício cor-de-rosa de dois andares com janelas brancas em Moncarapacho, cerca de quatro quilómetros a norte da Fuseta. A Fuseta não tinha esquadra própria e a Polícia Judiciária, a que Graciana e Carlos pertenciam, só tinha uma esquadra no Algarve, que ficava em Faro. Carlos Esteves pegou no rádio.
“A Graciana está a conduzir. O que se passa, Luís?”
Luís Dias e Ana Gomes eram de Moncarapacho. Nunca na vida tinham estado noutro país. Como todas as localidades de “segunda linha” do Algarve, que não se encontravam diretamente junto à costa atlântica, a povoação de oito mil habitantes estava impiedosamente exposta ao calor no verão. Aqueles que podiam pagar, construíam as suas casas na extensa paisagem montanhosa no extremo noroeste da pequena localidade. Corria sempre uma leve brisa lá em cima. Ali havia tudo o que era necessário para viver e, mesmo no século xxi, o tipo de turismo que aparecia em Moncarapacho era de um estilo mais requintado, pessoas que se interessavam pelo país e pelas suas gentes.
“Temos um morto.”
“Onde?”
“Na ilha leste. Estou aqui com a Ana. É o Olho. Parece ter colapsado.”
“Isolem a área”, instruiu-o Carlos.
Continuar a ler — comprar · 280 pp. · Edições Escafandro · Prefácio de Nuno Matos Valente
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